Cerca de 400 indígenas interceptaram, nesta quinta-feira (19), uma balsa de grãos no rio Tapajós, em Santarém (PA). A ação foi realizada com quatro embarcações e, segundo os organizadores, teve caráter pacífico. O objetivo foi chamar a atenção do governo federal e da sociedade para os impactos da transformação de rios amazônicos em corredores de exportação.
A balsa integra a cadeia logística de escoamento de soja pelo Arco Norte e foi abordada no trecho urbano do rio, quando estava atracada no porto da empresa Cargill, ocupado por indígenas desde 22 de janeiro. A mobilização mantém bloqueado o acesso terrestre ao terminal e, com a interceptação da embarcação, ampliou a manifestação também pelo rio.
Os manifestantes reivindicam a revogação do Decreto 12.600/2025, que incluiu os rios Madeira, Tapajós e Tocantins no Programa Nacional de Desestatização, e a anulação do edital de dragagem do rio Tapajós. De acordo com lideranças, o decreto permite a privatização da manutenção da navegabilidade, com autorização para dragagens e intervenções estruturais voltadas ao escoamento de commodities como soja e milho.
Auricélia Arapiuns, liderança do Baixo Tapajós, afirmou que a mobilização também cobra o cumprimento da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), com consulta prévia aos povos afetados antes da tomada de decisões.
O protesto ocorre no contexto do avanço do corredor logístico do Arco Norte, que inclui a Ferrogrão (EF-170), projetada para ligar Sinop (MT) a Miritituba (PA), ampliando a capacidade de transporte do Centro-Oeste aos portos amazônicos. O leilão da ferrovia está previsto para setembro. Segundo a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (ANTAQ), a hidrovia do Tapajós, integrada à BR-163 e aos portos de Santarém e Miritituba, movimentou mais de 15 milhões de toneladas de grãos em 2024.
Organizações socioambientais e estudos citados pelos manifestantes apontam possíveis impactos da transformação dos rios amazônicos em hidrovias, entre eles pressão sobre comunidades, quilombos e aldeias, aumento da especulação e da grilagem de terras, avanço da soja, contaminação de corpos hídricos, alterações no fluxo das águas e aumento da violência nas rotas de escoamento.
Renata Utsunomiya, analista de política de transporte da GT Infraestrutura, afirmou que a Ferrogrão, a expansão de portos graneleiros privados e a hidrovia do Tapajós podem ampliar de cinco a sete vezes a quantidade de soja transportada, com reflexos sobre territórios tradicionais e metas de redução do desmatamento.
Alessandra Korap, liderança do Médio Tapajós, declarou que, em frente à Reserva Indígena Praia do Mangue, em Itaituba (PA), há portos irregulares e silos de soja que, segundo ela, afetam a pesca e a qualidade da água nas aldeias do povo Munduruku. Maria Leusa Munduruku afirmou que dragagens alteram o fluxo natural dos rios e citou o registro de 17 centímetros no nível do rio Tapajós em outubro de 2024, 77 centímetros abaixo do recorde anterior de pior seca.
A mobilização reúne cerca de 1.200 pessoas. Na segunda-feira (16), aproximadamente 50 indígenas Kayapó e Panará, do Mato Grosso e do Pará, chegaram ao acampamento. Na sexta-feira (13), Munduruku do Alto Tapajós também aderiram ao movimento, que conta ainda com apoio de povos e movimentos das bacias dos rios Madeira e Tocantins.
Representantes do Xingu também participam do ato. Segundo os organizadores, em Mato Grosso há preocupação com a expansão da soja sobre territórios indígenas após mudanças na Moratória da Soja. Os Panará mencionam impactos históricos da abertura da rodovia Cuiabá–Santarém, que, conforme a Comissão Nacional da Verdade, resultou na morte de 66% da população original. Takakpe Mektutire, do Instituto Raoni, afirmou que o grupo participa do protesto contra a privatização dos rios da Amazônia e em apoio aos povos do Tapajós.






